Opúsculo do texto Espiritismo:Uma reflexão sobre os fundamentos, de Gilberto Campista Guarino.
A PROPOSTA. O conhecimento só é um continuum se
e enquanto, por impositivo de concessões diversas, mesmo
políticas –e, talvez, principalmente políticas–, é visto como útil
para a manutenção do poder, pelo tempo em que este não tem
como lidar com o novo. E entra em cena um baile de máscaras,
na medida em que os institutos da dominação melhor se
apropriam desse novo, para garantir a continuidade do próprio
poder. A seguir, dominada a idéia, lança-se sobre ela a pecha do
ridículo, consagrando-se a pretensão à hegemonia do poder.
A Codificação Espírita foi um esforço de síntese
empreendido num caldo de cultura composto, dentre outros, por
quatro ingredientes aparentemente inconciliáveis: o dualismo
cartesiano, o positivismo mecanicista e triunfalista, filho de uma
sensação de domínio definitivo sobre a natureza, o
fiscalizacionismo cristão, advertindo sobre a culpa acerca do
conhecimento (em deturpação do emblema da expulsão do
Paraíso), e o romantismo exacerbado, especialmente no campo
das Artes.
Foi nesse contexto que o trabalho do codificador
desenvolveu-se, quando ainda reinava, inconteste, o modelo
cartesiano-newtoniano, inexistentes os trabalhos de Albert
Einstein (Relatividade Restrita e Relatividade Geral) e o
importante pensamento de Bohr, Heinsenberg e Schroedinger,
dentre outros, responsáveis pela sistematização da Física
Quântica. Esses notáveis paradigmas transformaram a Mecânica
newtoniana em teoria limite, dando curso à dinâmica da evolução
do pensamento científico.
Assim, entre a exaltação ex cathedra da certeza
emanada das leis do genial e polivalente físico inglês1, o temor do
‘‘olho divino’’—de prontidão para o abate do chamado ‘‘orgulho
intelectualista’’– e o saudosismo das elucubrações poéticas, na
Música e na Literatura, Allan Kardec surge como epígono das
filosofias imortalistas e prógono de autêntica revolução de
fundamentos, tudo tratado como revelação divina.
Ninguém ignora que, tal como a chamada “Revolução
Copernicana”, aqueles novos sistemas produziram uma dramática
alteração em nosso modo de perceber o contorno, introduzindo
poderosos instrumentos de equacionamento e interpretação da
realidade, o que gerou importante alteração das reflexões e
considerações acerca do homem e da vida.
Precisaremos, por isso, abordar alguns pontos vitais
desse verdadeiro corte epistemológico procedido, que em nada
alterou o núcleo da teoria espírita. O Espiritismo tem ar o
suficiente para ocupar, na cultura contemporânea, o espaço em
que se definirá tanto mais como uma grande e crucial vertente do
conhecimento, quanto mais a Ciência aprofundar seu mergulho
na matéria. Se é verdadeiro que, como escreveu Erwin
Schroedinger, ‘‘não devemos nos sentir desencorajados pela
dificuldade de interpretar a vida a partir das leis comuns da
Física’’, menos verdadeiro não é que este só esforço bastará para
lançar-nos, dramática e decisivamente, nos domínios das leis do
Espírito.
Este opúsculo, que reconheço bastante denso, não é,
visto isso e imediatamente, uma introdução ao Espiritismo,
enquanto guia para se lhe compreender os princípios.
Leva, porém, a tanto, na medida em que é, seguramente,
uma leitura filosófica dos fundamentos dessa grande teoria, tal como
–quero crê-lo— foi pensada por Hippolyte-Léon Denizard Rivail, o de há
muito famoso e mal compreendido Allan Kardec.